terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Uma Análise do Precursor "Oaristos", de Eugênio de Castro

Caros leitores do Sacrário das Plangências, não escrevo esta postagem com o intuito de analisar cada verso  de Oaristos, lançado em 1890, como um especialista em diamantes o faz em seu ofício, mas o faço com o intuito de analisar o livro em dois pontos: o primeiro diz acerta da sua importância para o Simbolismo Português, sendo considerado o primeiro livro do estilo na terra lusitana; o segundo ponto ronda o prefácio do livro, evidentemente corajoso e precursor dos problemas da poesia pós-moderna, presente na edição das Obras Poéticas de Eugénio de Castro - Tomo I -, da Editora Campo das Letras.


Eugênio de Castro (1869 - 1944) consegui com o seu Oaristos, o seu sexto livro, mas o seu primeiro a ser realmente impactante e de personalidade própria, fincar uma bandeira do Simbolismo em Portugal. O nome do livro evidencia todo o texto, sendo a obra um grande diálogo, tácito ou não, imaginário ou não, entre amantes. A sua primeira edição continha dezenove poemas, sendo que, após a segunda edição, quatro foram retirados,  perpetuando-se essa edição. Iniciando o livro com imagens clássicas do Simbolismo, evidenciando uma fervorosa sinestesia, Eugênio de Castro já evoca uma das mais clássicas imagens do movimento:




I

Triunfal, teatral, vesperalmente rubro,
Na diáfana paz dum poente de outubro,
O sol, esfarrapando o incenso dos espaços,
Caminha para a morte em demorados passos,
Como as bandas que vão a tocar nos enterros...
E, surgindo detrás de acuminantes serros,
Melancolicamente, a lua de mãos belas,
Tecedeira do azul, tece, num tear de estrelas,
Um lenço branco, um lenço alvíssimo e brilhante,
Para acenar com ele ao sol, seu ruivo amante...

(...)

Aliás, a imagem do Sol é constante em Oaristos, seja numa evocação do sol português - como é típico da literatura da região -, seja numa evocação típica dos Simbolistas, como em "O sol é um ramo de ouro, a arder, que se desfolha..." (Poema VI). Com várias aliterações, lugares estranhos, imagens além-mundo - apesar de toda temática perambular em torno de dois seres -, Eugênio de Castro levou a Portugal as características mais básicas do movimento do "grande e amado Baudelaire" (Poema VII). Sobre o âmbito que se apoia na tese de que o Simbolismo é um movimento Pós-Romântico, tornando uma grande falácia a separação de Decadentistas, Nefelibatas (que foram, na França, os Pós-Românticos) dos Simbolistas - sabendo-se também que um estilo só se vê nomeado quando atinge o seu ápice ou o seu fim -, transcreverei um soneto da obra e o trecho de outro poema.

VII

Un autre, plus heurex, va unir son
sor à celui de mon amie. Mais quoi-
qu'elle trompe ainsi mes plus chères
espérances, dois-je la moins aimer?
Mackensie

Tua frieza aumenta o meu desejo:
Fecho os meus olhos para te esquecer,
Mas quanto mais procuro não te ver,
Quanto mais fecho os olhos mais te vejo.

Humildemente, atrás de ti rastejo,
Humildemente, sem te convencer,
Antes sentindo para mim crescer
Dos teus desdéns o frígido cortejo.

Sei que jamais hei-de possuir-te, sei
Que outro, feliz, ditoso como um rei,
Enlaçará teu virgem corpo em flor.

Meu coração no entanto não se cansa:
Amam metade os que amam com esp'rança,
Amar sem esp'rança é o verdadeiro amor.

Paris, 29 de Setembro de 1889.


Note-se que esse soneto, uma obra-prima da Literatura em Língua Portuguesa, é uma das mais belas definições de amor platônico já escritas. O próprio Andrade Muricy o havia falado na Introdução de seu Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro que essa era uma das páginas mais importantes do Simbolismo como um todo.

Eis um trecho do segundo poema:

XIV

(...)

Desde esse dia, desde então, quero esqueces,
Mas sempre embalde, aquela cena pungitiva:
Vejo-te sempre, delicada sensitiva
Morta, bem morta, sobre o esquife, as mãos no peito,
Vejo-me a mim chorando o meu sonho desfeito,
Chorando o desabar dos meus áureos castelos,
Alucinadamente, arrancando os cabelos!
Nunca, nunca me larga essa obsessão violenta:
Por onde quer que eu vá de mim nunca se ausenta;
Como uma sombra má, persegue-me em surdina;
Vampiriza-me a vida, incomoda clepsina;
Ela me faz odiar os negros cemitérios,
As matas cheias de sussurros, de mistérios,
E os sombrios pauis cobertos de miasmas;
Ela me faz recear os lívidos fantasmas,
Que andam de noite, em bando lúgubres, proscritos;
Ela me sugeriu estes versos escritos
Enquanto o meu relógio antigo de pau santo
Bate, isocronicamente, ao pé de mim, enquanto
Três rosas glaciais dum palor inefável,
Tristes, vão definhando em seus ravos anidros,
E enquanto vejo além a Lua formidável
Como um crânio fatal a espreitar-me entre os vidros.

Coimbra, 06 de Dezembro de 1899.

Toda a morbidez que tanto é referida e atribuída aos Românticos é encontrada nesse trecho, cujas rimas dísticas, padrão do livro, aparecem novamente, com a sempre presente finalização em rimas cruzadas (aliás, Cruz e Sousa, em seus dísticos, utilizava essa mesma estrutura). Além do mais, a relação entre as dores,  o devaneio mórbido e o tempo evoca Baudelaire e seu clássico "O Relógio".

O livro teve uma importância gigantesca para os Simbolismos nos países de língua Portuguesa, sendo bastante lido no Brasil, por exemplo. Eugênio de Castro lançaria pouco tempo depois Horas, livro no qual o seu Simbolismo estaria completamente consolidado.

Sobre esse Simbolismo, ele já havia tecido grande parte do alicerce em seu Prefácio. Cá transcrevo as partes mais importantes:

PREFÁCIO - OARISTOS

(...)
Com duas ou três luminosas exceções, a Poesia portuguesa contemporânea assenta sobre algumas dezenas de coçados e esmaiados lugares comuns. Tais são:

Olhos cor do céu, olhos comparados a estrelas, lábios de rosa, cabelos de ouro e de sol, crianças tímidas, tímidas gazelas, brancura de luar e de neve, mãos patrícias, dentes que são fios de pérolas, colos de alabastro e de cisne, pés chineses, rouxinóis medrosos, brisas esfolhando rosas, risos de cristal, cotovias soltando notas também de cristal, luas de marfim, luas de prata, searas ondulantes, melros farsolas assobiando, pombas arrulhadoras, andorinhas que vão para o exílio, madrigais do dos ninhos, borboletas violando rosas, sebes orvalhadas, árvores esqueléticas, etc.

No tocante a rimas, uma pobreza franciscana: lábios rimando sempre com sábios, pérolas com cérulas, sol com rouxinol, caminhos com ninhos, nuvens com Rubens (?), noite com açoite; um imperdoável abuso de rimas em ada, ado, oso, osa, ente, ante, ão, ar, etc.

No tocante a vocabulário, uma não menos franciscana pobreza: talvez dois terços das palavras, que formam a língua portuguesa, jazem absconsos, desconhecidos, inertes, ao longo dos dicionários, como tarecos sem valor em lojas de arrumação.

(...)
Introduz-se o desconhecido processo da aliteração: veja-se o poema XI e muitos versos derramados ao longo desta silva.

Ao contrário do que por aí se faz, ornaram-se os versos de rimas raras, rutilantes: na mais extensa composição, a composição IV, que tem cento e sessenta e dois alexandrinos, não se encontra uma única rima repetida.
(...)

Acerca dos lugares comuns, é evidente que Eugênio de Castro estava pontuando aqueles que já colocavam a poesia sobre um risco de dar volta sobre si mesma. Mas é bom dizer que o próprio Simbolismo utilizou alguns desses "lugares comuns", não impedindo a boa produção poética, sendo decisivo, nesses casos como em qualquer outro, a competência do poeta.

Em algumas ocasiões, eu já critiquei os "Valores das Rimas" e a superestimação que dão muitos a este este meio de se analisar uma rima. Em si, a rima é o fim de um verso, não necessariamente de uma ideia (vide os enjambements) feito por um meio musical e condizente com a temática da estrofe e do poema. De nada adianta termos um poema cheio de rimas ricas se ele é pobre tematicamente, sendo muito mais essencial a complexidade da ideia como um todo do que os valores das rimas, em si. Mas, para termos um desenvolvimento de um pensamento, faz-se necessário o conhecimento da Língua-Pátria e de seu uso. Nesse ponto, Eugênio de Castro foi perfeito - e totalmente contemporâneo, sendo arrepiantemente pressago -, pois há desconhecimento total da Língua Portuguesa, assim como o desdém pelo desenvolvimento das suas técnicas (como a aliteração, que é a repetição de fonemas nos vocábulos  durante uma sentença - no caso, em versos). Não há como desdenhar de "os valores da rima" e pôr, acima de tudo, o valor poético da obra se não há nem a busca por um nem o desenvolvimento do outro. E eis que se faz tão pressagiadora dos problemas da poesia contemporânea essa magnificente obra de Eugênio de Castro.

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Nesta semana, completa-se noventa anos do Movimento da Semana da Arte Moderna 1922, genialmente chamada por Mário Chamie, da Poética Práxis, falecido ano passado, de "a vanguarda anti-vanguarda" por ter juntado vários artistas, que não necessariamente comungavam sobre a mesma cruz, para se unirem sobre um Signo, para logo se dispersarem nas suas evidentes singularidades artísticas, nunca chamadas, porém, mesmo se reunidos em grupos, de vanguardas. Além do já discutido papel dos Simbolistas nesse período (Manuel Bandeira fora um; Guilherme de Almeida era mais um leitor do Simbolismo Francês do que das vanguardas Modernistas, fazendo magníficas traduções desse movimento, para dar dois exemplos), também podemos pensar no Pós-Modernismo. Afinal, essa fase - se é que é verídica - não terá fim? A pobreza quase que franciscana de vocabulário, apontada há mais de um século por Eugênio de Castro, e  defendida à faca pelos poetas contemporâneos, não terá de ser findada, com o objetivo de por a lume o que está nos dicionários e em livros que têm fácil acesso? 
A relembrança pelo Movimento de 1922 é mais que justa - mas noventa anos depois, eis que é tempo do culto à liberdade artística deixar de ser culto ao prosaico, embebida nos sermões autoritários que rumam o ofício poético a um só caminho: o do desprestígio (apesar de termos melhoras, pouco a pouco, no ambiente brasileiro e português...).

Abraços,
Cardoso Tardelli

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