quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Justiça Histórica II - Cruz e Sousa e o Dia da Consciência Negra

Esquecer é andar entre destroços

Que além se multiplicam...

Sem reparar na lividez dos ossos

Nem nas cinzas que ficam...


Cruz e Sousa - Esquecimento



Esta postagem não tem como função discutir a real amplitude que o feriado do dia 20 de Novembro atinge no significado de sua comemoração - Dia da Consciência Negra -, mas tem o objetivo de apontar uma falha imperdoável dentre as considerações aos grandes mestres da nossa literatura que eram negros.

Com a aproximação do dia 20 de Novembro, vemos movimentações em escolas, universidades - algumas delas reportadas em jornais e programas televisionados - celebrando os grandes negros de nossa nação. Dois mulatos de suma importância para a nossa Literatura são redundantemente citados, com a razão do laurel: Machado de Assis e Mário de Andrade. Porém, não há sequer uma citação ao poeta Simbolista Cruz e Sousa, que, filho de escravos e de sangue sem mistura, sofreu em um Brasil em processo de abolição da escravidão (anterior aos lançamentos de Missal e Broqueis, que datam de 1893) e em um país, quando a escravatura já havia sido abolida, cuja mentalidade era totalmente escravocrata, ao mesmo tempo que sua obra ganhava o contorno mais maduro.


A inquestionável posição que Machado de Assis tomou na Literatura de Prosa brasileira dá a ele uma coroa no dia 20 de Novembro, numa palavra exata, injusta. Machado e Cruz e Sousa viviam situações diferentes em relação à Crítica às suas obras, consequente valorização popular e maior respeito - leia-se com atenção, maior, não total -, com o fato de ambos serem descendentes de negros.


Segundo Luiz Felipe d'Avila, em seu livro Os Virtuosos - Os estadistas que fundaram a República Brasileira (Ed. A Girafa, 2006), no ano de 1869, Machado de Assis tinha um emprego público estável - de onde tirava sua renda - e já era um conhecido escritor das terras cariocas, mesmo que sua grande obra não houvesse sido criada ainda. Neste mesmo ano, casou-se com a irmã do poeta português Faustino Xavier de Novaes: Carolina. O fato de Machado ser mulato causou desaprovação da família de Carolina e Faustino, que por sua parte, aprovava a união dos dois.

O período do casamento entre Assis e Carolina foi o período cujas obras clássicas foram compostas.
Mesmo Memórias Póstumas de Brás Cubas (lançado em 1881) não obteve uma grande resposta dos críticos, pois conseguia, ao mesmo tempo, quebrar com a estética Romântica e com a Naturalista. Realçar-se-á que o estilo de Machado, finalmente classificado de Realista, foi defendido por Cruz e Sousa em 1882 na publicação Tribuna Popular, quando este tinha 21 anos e Machado 43 anos.

Na época da fundação da Academia Brasileira de Letras, no ano de 1897, cujos principais nomes fundadores, como sabemos, eram Machado de Assis, o crítico e escritor José Veríssimo, o estadista Joaquim Nabuco e o poeta Parnasiano Olavo Bilac, entre vários outros importantes acadêmicos, o nome de Cruz e Sousa sequer foi cogitado para pertencer a tal instituição (Ivone Daré Rabello; Um Canto à Margem - Uma Leitura da Poética de Cruz e Sousa; Edusp, 2006).
Tendo em vista que o Simbolismo já era um movimento formado no Brasil, e o nome de Cruz e Sousa fosse, inegavelmente, o mais representativo do estilo, apesar das vorazes opiniões dos críticos, a ausência do poeta do Desterro pode ser analisada de algumas formas.

Alguns dos Acadêmicos que fundaram a ABL faziam parte da Crítica à poética Cruziana, como José Veríssimo e Araripe Junior (este, porém, reconhecia a qualidade na poesia da Cruz e Sousa, mas deixando claro que ele não negava a África de seus ascendentes, dada às imagens que dava em suas linhas de prosa poética em Missal, chamando-o de um "impressionado" com a civilização). Além do mais, a presença de Olavo Bilac, um Parnasiano, como um dos representantes maiores da ABL pode explicar a falta da cogitação do nome de Cruz e Sousa a uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (não nos esqueçamos que o Simbolismo - também conhecido como o "Grupo dos Novos" - travava uma batalha contra o Parnasianismo, mesmo que esteticamente trouxesse algumas características dos Parnasianos).

Mas alguns nomes que não se podem excluir, evidentemente, são o de Joaquim Nabuco, conhecido pela sua luta pela abolição (luta que Cruz e Sousa participou durante a década de 1880, viajando por vários lugares do Brasil em defesa do fim da Escravidão) e do próprio Machado de Assis. Qual terá sido o motivo, afinal, de um estadista que defendeu a abolição e de um escritor mulato que não participava do conflito Simbolista/Parnasiano para não cogitarem o nome de Cruz e Sousa, que naquela altura já tinha seu nome conhecido por todos, mesmo que as suas grandes obras ainda não houvessem sido lançadas? A saber, Evocações, Faróis e Últimos Sonetos foram lançadas todas post-morten, em 1898, 1900 e 1905, respectivamente.

Claramente, a poesia Cruziana era desdenhada, independentemente da evidência de sua qualidade, entre os defensores dos negros e entre os próprios negros. O Simbolismo, mesmo sendo difícil classificar Cruz e Sousa somente como um poeta Simbolista, era um estilo que não condizia com as tentativas de forçar uma ideia de República Brasileira Forte, função que a ABL também teve em seu início (d'Ávila, Os Virtuosos - Os estadistas que fundaram a República Brasileira). Os nomes que ocupariam as cadeiras da ABL, inicialmente, não vinham por méritos Literários somente, mas por questões políticas também, então pouco importava a nomeação de Cruz e Sousa, um poeta perscrutador das dores humanas, naquele momento.

Quanto a Mário de Andrade, citado no início deste post, há uma relação da poesia dele com a poesia de Cruz e Sousa que não podemos esquecer, pois a glória é dada toda ao poeta de Pauliceia Desvairada injustamente. Como bem notou Ivan Teixeira no Prefácio de Missal/Broqueis, da Editora Martins Fontes, a questão do Verso Harmônico, cuja esquematização é creditada a Andrade, já era evidente em Broqueis. De Cruz e Sousa era tamanha a musicalidade dentro das estrofes, não apegada aos verbos e substantivos, não somente nas rimas ao final do verso, que já é claro a Ivan Teixeira que o poeta do Desterro esquematizou no ofício de sua poesia o Verso Harmônico, muitos anos antes de Mário de Andrade, que no seu "Prefácio Interessantíssimo" dizia que os antigos faziam a musicalidade interna inconscientemente, sem o Método que ele estava declarando ser seu no Prefácio citado. Um aprofundamento neste tema necessita de outra postagem, pois ele, por si somente, já termina em uma discussão longa, o que tornaria este post muito maior.

Cruz e Sousa é um dos gênios negros que tivemos, porém não goza de quase nenhum prestígio dos que reivindicam a Memória aos negros do Brasil. Negros estes que lutaram contra as ordens sociais, econômicas e literárias para mostrar sua obra antes de mostrar sua pele. E os que são colocados em pedestais dourados, inquebráveis, não sofreram metade do que o poeta do Desterro teve como provação. O Esquecimento do Poeta Cruz e Sousa, tal como de sua poesia pelos que defendem a conscientização da importância dos negros para a formação intelectual e política do Brasil, soa-me como uma absência de conhecimento do próprio passado histórico e literário brasileiro, não somente o negro, e uma letargia para conhecê-lo. A reivindicação é justa, mas excluir Cruz e Sousa é simplesmente inaceitável. Manuel Bandeira escreveu em sua Apresentação da Poesia Brasileira (1946), em relação a Cruz e Sousa: "(...) Não há nesta (literatura brasileira) gritos mais dilacerantes, suspiros mais profundos que os seus". Sem mais.

Abraços, Cardoso Tardelli

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