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sexta-feira, 2 de outubro de 2015

"Perfumes que Ficam", novo livro de poesia de Caio Cardoso Tardelli

Caros leitores do Sacrário das Plangências,

Lancei, há cerca de um mês, o meu novo livro de poesia, intitulado "Perfumes que Ficam". A editora escolhida foi a Kazuá, que fez um trabalho gráfico espetacular. Por ora, a obra está disponível por meio do site da Editora (clique sobre a capa para ir ao link da loja da Kazuá) e da Livraria Cultura. Há alguns exemplares comigo - para adquiri-los, basta enviar-me um e-mail (caio.tardelli@gmail.com). O preço é R$35,00.



Eis três poemas da obra:



A Morte me disse, certa vez,
Que embora muita vida pulsasse,
A vida é um reino fugace
Que - não importa a era - não tem reis.

Neguei, julgando ser insensatez
Que a Morte assim me falasse
Sobre a vida sem que a face
Do viver me contasse suas leis.

Mostrei à vida, então, um retrato:
Na mesma sala, eu bem infante,
Com o olhar em fulgor inexato...

“É a crença que reina os mundos!”
E ela: “É morto o instante,
Nada o agora. São reis os segundos!”

26/07/2013
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SOBERANIA

Na rude estrada em que me perdia,
Tingia o sol o meu rumo inconstante...
A esperança era um vento arfante
Já sem manifesta feição ou melodia.

O meu peito exausto não mais pedia
A água para a sede apavorante:
Um manso descanso é o bastante
Quando a ilusão já não alumia.

A tristeza circundava os momentos:
O céu era o meu abrigo aos relentos,
As estrelas minhas amantes cristalinas.

E quando n'horizonte (ó êxtases belos!)
Floriu a visão de derrotados castelos,
Vi-me soberano entre íntimas ruínas...

07/11/2012

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XVII

A Liberdade... A Liberdade não existe.
É uma ilusão daqueles que não amam
(A cada um o rumo revela correntes).
Um abrigo, que alma e coração reclamam,
Prender-nos-á entre paredes horrentes.
Ah! O sonhador é a sombra de seu sonho triste...
(Escravos das esperanças evanescentes...)
A Liberdade... A Liberdade não existe...

06/02/2014

Grande abraço,
Caio Cardoso Tardelli

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

A Boa Fase Editorial da Poesia Brasileira

Caros leitores do Sacrário das Plangências, quem acompanha de longa data este blog sabe da minha postura cautelosa acerca do gênero poético e de sua recepção e divulgação no Brasil. Em posts mais delicados, como no que eu analisei a lista de leituras para a Fuvest/Unicamp de 2011/2012, percebia que, ao menos no que cinge o Ensino Médio, a poesia tem sido deixada de lado - ou por ser considerada "muito difícil" por acostumados à sintaxe da prosa, ou por um mau ensino do gênero literário - que o demonstra muito mais como uma ciência (cheio de métricas, métodos, formas - que existem, sim -, mas com pouca sensibilidade para contextos históricos, filosóficos e literários, mais condizentes do que exercícios de contagem de decassílabos ou polimétricos...). Mas o que é evidente é que a poesia em terras brasilianas começou, em determinado momento do Século XX, a ficar cercada de um certo "misticismo", tanto das editoras quanto dos leitores, quando se declarou seca a fonte intelectual do gênero, e mais seca ainda a fonte de leitores, fazendo convir, com o passar do tempo, a pergunta: "Quem tem medo de poesia?".

Mas é flagrante que o momento editorial para a poesia, no Brasil, mostra-nos um panorama interessante e em plena transfiguração. Alguns fatos me fazem dizê-lo. Quando soube que Toda Poesia, de Leminski, vendeu, em seis meses, mais de 50 mil exemplares (sendo 20 mil só em um mês e meio), animei-me. Não que Leminski, apesar de sua erudição magnífica, fosse um poeta de complexidade e hermetismo textual como Ernâni Rosas, mas é um poeta, com a justa assinatura do ofício... e, mesmo assim, superou qualquer expectativa de venda para a poesia. É, claro, foi um fenômeno, pois a prosa é que detém essas marcas tão significativas. Mas um fenômeno que nos indica o que está ocorrendo no mercado editorial da poesia.

No último domingo (dia 11/08/2013), na Folha de São Paulo, foi divulgada a notícia de que a Companhia das Letras (a mesma editora que republicou com sucesso o Leminski), republicará a obra de Ana Cristina Cesar, poetisa carioca, falecida em 1983 e que já estava fora de catálogo. Uma editora de tamanho porte republicar obras completas de dois poetas (é bem claro, contemporâneos e de estilos condizentes, por exemplo, ao curto dizer das redes sociais) significa uma clara aposta na poesia. E que se diga, a "Ilustríssima", caderno cultural da Folha, tinha 4 das suas 7 páginas dedicadas ao gênero poético, neste último domingo. É uma exposição deveras interessante. 
Não se pode, no contexto de relançamentos de algumas obras clássicas (independentemente da escola poética), passar desapercebido o relançamento das obras de Cecília Meireles, que até pouco tempo tinha as suas poesias somente encontráveis em Sebos.

Um ponto que é evidente: basta uma passada por livrarias de grande porte para perceber que, na seção "Poesia", a variedade de editoras é enorme. Vai da Multifoco (pela qual publiquei a "Poética das Quimeras") até a emergente Patuá, passando por IbisLibris, Giostri, 7Letras, Escrituras, entre outras (é claro, incluindo-se aí as gigantescas). Nenhum gênero literário cresce e é valorizado sem que tanto as editoras quanto os autores lutem nos literários meios e com os cabíveis esforços para que ele chegue ao público. Toda Poesia, de Leminski, vendeu em tamanha proporção porque a editora (que é uma gigante), é bem claro, distribuiu e divulgou a obra, fazendo com que o público tivesse ampla informação sobre o poeta e, acima de tudo, fácil acesso ao livro. O que percebo é que as obras de poesia, sejam elas de autores iniciantes ou não, estão chegando mais facilmente às estantes das livrarias. Nunca se encontrou tanto poesia quanto agora - consequentemente, nunca se vendeu tanto.

Porém, ainda há paradigmas a serem quebrados. Existem ainda pessoas que bradam o clichê "poesia não vende", ou pior, "no Brasil, quem lerá poesia?". Esse último já era dito - e satirizado - no Século XIX, quando Simbolistas e Filósofos, um dos quais Farias Brito, foram nivelados a outro mundo, não ao Brasil, "pois, em país de carnaval, quem vai ler sobre espiritualidade?"; e, como vimos, apesar do fenômeno Leminski, a poesia vende, sim, apesar da prosa ser ainda o claro foco dos leitores. 
Há também um curioso paradigma a ser rompido: o dos editores. Alguns ainda se sentem inseguros quando o assunto é poesia, mesmo que o gênero já tenha dado sinais de sobrevida e de crescimento no mercado. É evidente que nem todos poetas que mandam originais são realmente bons, mas o que não exclui o fato de que muitos editores ainda vivem em um mercado passado, no qual a poesia era divulgada tão somente nos eventos comandados pela editora ou em um ou outro jornal com interessante aporte (que é até hoje um jeito bom de se divulgar), não tendo uma ferramenta como a internet para auxiliar na divulgação e nas vendas dos livros. Não digo, porém, nas vendas encomendadas por demanda - mas as por E-book. Creio que a editora que tiver tanto o livro físico disponível nas estantes das Livrarias quanto o E-book disponível em seu site sairá na frente no mercado da poesia. E há um motivo para isso: muitas pessoas enxergam ainda um livro de poesia como um livro de "esparsos", não como uma obra com um meio, começo e fim. Cada poema é uma obra independente, mas, se postos em um livro, em ordem determinada pelo autor, há uma lógica e um porquê; mas, mesmo assim, é pelo motivo de um livro de poesia ter essa capacidade excepcional de divisão e singularização de cada poema é que o e-book poderia ser mais utilizado pelas editoras que pretendem publicar o gênero. Utilizá-lo juntamente com a publicação impressa, como eu evidenciei.

Aliás, acerca da internet, é-me claro que o crescimento da poesia está ligado com o crescimento de seu uso. Há muitos bons sites de literatura, e até mesmo uma ferramenta como a Wikipédia auxilia a um leitor interessado, mas com poucas informações sobre um autor ou um estilo, a obter nomes de alguns livros para, enfim, comprá-los em uma livraria. Muitos autores foram redescobertos após o advento da rede digital; muitos, após esse lume, tiveram a sua obra completa disponibilidade - fosse por meio de e-books ou por publicação impressa.

Se, por um lado, não tenho a pretensão de achar que a poesia emplacará dez best-sellers, por outro, suponho melhores ares para o gênero (seja para os poetas futuros ou do passado). O Brasil sempre foi terra de magníficos poetas - muitos dos quais reconhecidos no estrangeiro (apesar, vejam bem, da dificuldade de se traduzir uma poesia em Português) - e não há motivos pelos quais da continuidade desse misticismo de um Brasil anti-poético, sem leitores de poesia - ou fechados na Academia -, mesmo porque os fatos demonstram o contrário. E ei-los que assim continuarão.

Abraços,
Cardoso Tardelli

terça-feira, 13 de agosto de 2013

Lembramentos - Cardoso Tardelli

Caros leitores do Sacrário das Plangências, posto-lhes um poema presente na Poética das Quimeras (Selo FuturarteEd. Multifoco, 2012). 

A obra está disponível na Livraria Cultura (clique aqui para o link) e no site da editora (clique aqui para o link). Há agora também o e-book da Poética das Quimeras (clique aqui para comprá-lo na Amazon.)

LEMBRAMENTOS - Cardoso Tardelli

Deparo-me com o Sonho,
Tristonho,
E lembro-me de ti,
E tal qual entressonho,
No negror algo me sorri.

Ante tal forma d'alento,
Lamento,
Pois inda vasto de negror
Era aquele momento
Com o rir de teu fulgor.

Mas crescias, resplandecias,
Como dias,
Quando cantam d'aurora
Os hinos das alegrias
Dos tempos de outrora.

E em minha terna visão,
Na ilusão,
Ouço a tua voz d'esperança
Que vinha de teu coração:
Canto angélico de bonança.

Porém, passavas medos,
Segredos,
Em todos teus brandos cantos,
Soando todos tredos,
Lassos, de tristes encantos.

E no lúgubre perturbar,
No Sonhar,
Tremulava tu'imagem,
Em ardentoso prantear
Sem o bálsamo d'aragem.

E qual tenro delírio,
Martírio,
Vejo o negror tornar ao Sonho,
E o afável Círio
Fanou-se em luto medonho.

18/12/2010

Abraços,
Cardoso Tardelli

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Ode ao Amor - Cardoso Tardelli

Caros leitores do Sacrário das Plangências, posto-lhes um poema presente na Poética das Quimeras (Selo FuturarteEd. Multifoco, 2012). 

A obra está disponível na Livraria Cultura (clique aqui para o link) e no site da editora (clique aqui para o link). Há agora também o e-book da Poética das Quimeras (clique aqui para comprá-lo na Amazon.)

ODE AO AMOR - Cardoso Tardelli


Tudo que é vivo neste mundo
E dele já teve algum sorriso,
Foi por crer em Teu lume fundo,
Em Teu inefável e mágico viso
Que, perante o pacto moribundo
Do coração nas dores da vida,
Cintila como chama encandecida
Pela mente alheia ao juízo.

Ah! Eterna luz de nossa alma,
Eterna Lua entre as negras brumas.
Salmo dos Anjos que acalma
A tormenta envolta em escumas.
Cântico feroz, falaz, que ensalma
O desaparecer dos mais belos Astros
Sem que nos ergam fúlgidos mastros
Para que vejamos Deles as prumas.

Amor que na Terra não floresce,
Que aos tristes homens não é dado;
Amor da Terra da Ástrea prece,
Que ao homem deixou orfanado,
Que fazes quando nosso pranto desce?
Que fazes quando vem o sangue,
Lento, pelo martírio que o langue
Espectro Teu nos dá, mascarado?

Tudo que é morto nessa Terra,
E já desceu à torva sepultura,
Tomou de tua água que erra
Pela fonte da Visão impura.
Nascente caudal, que não encerra
A Sede sublime pelo Amor
Que aqui não tem riso nem fulgor,
E dorme junto do Céu à negrura.

Ah! Fantasma medonho, a sorrir,
Refletindo o lume das Estrelas!
Luzes que passam forte, a rir,
De nossa Ilusão lassa ao vê-las.
Amor quimérico a nos trair,
Mostrando-nos do Celeste a luz
E o seu esvaimento na cruz
D'agonia ao tentar vencê-las.

Amor que na Terra não floresce,
Que aos tristes homens não é dado;
Amor da Terra da Ástrea prece,
Que ao homem deixou orfanado,
Que fazes quando nosso pranto desce?
Que fazes quando vem o sangue,
Lento, pelo martírio que o langue
Espectro Teu nos dá, mascarado?

21/10/2010 – São Paulo

Abraços,
Cardoso Tardelli

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Delírio! - Cardoso Tardelli

Caros leitores do Sacrário das Plangências, posto-lhes um poema presente na Poética das Quimeras (Selo FuturarteEd. Multifoco, 2012). 

A obra está disponível na Livraria Cultura (clique aqui para o link) e no site da editora (clique aqui para o link). Há agora também o e-book da Poética das Quimeras (clique aqui para comprá-lo na Amazon.)


DELÍRIO! - Cardoso Tardelli

"Alma! Que tu não chores e não gemas,
Teu amor voltou agora."
Cruz e Sousa

Santo o coração que sobreviveu inda
Sem a luz do amor que o domina...
Que, n'agonia da tormenta infinda,
Lembrava da fulgência divina!...

Nobre a alma que, abandonada,
Viveu tateando do passado as chagas
Na imortal ânsia da chegada
Do Amor que ornou as escuras plagas...

Pois os calvários regem o mundo
Como um cântico que nos guia à morte...
Ah! Orvalhado de sonho fecundo
O olhar que vê na terra alguma sorte...

Porque sempre voltam ao nosso afago
Os amores que julgávamos mortos...
Mas tão estranhos, suspirando pressago,
Trazendo nas frontes prantos absortos...

Voltam pedindo o remir do sofrer quedo,
Dos cilícios no peito, resignados...
Voltam porque atingem a febre do medo,
Quando ao Céu eram para serem alçados...

Tornam ao olhar do que os cantou no afã
Da saudade e da lembrança sem termos...
Quão belo seria ver a luz louçã
Que sonhei, pois eles vêm tristes, enfermos...

Ah! Que dê um coração intemerato
Abrigo aos que plangem horror atroz...
Pois, ao ouvirem o canto que desato,
Dizem: “Adeus! Tu sofres mais que todos nós!”

Abraços,
Cardoso Tardelli

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Três Poemas de Cardoso Tardelli na Revista Benfazeja

Caros leitores do Sacrário das Plangências, como vocês sabem, já tenho uma obra publicada (Poética das Quimeras, pela Editora Multifoco, 2012). Já tenho um outro livro pronto e que em breve será publicado. Como meio de divulgação dos poemas inéditos presentes na minha segunda obra, mandei para a Revista Benfazeja - um dos portais literários mais acessados da internet - três cantos do livro; e ei-los já publicados pelo sítio referido. Entre os três publicados, há o soneto "Soberania":


SOBERANIA - Cardoso Tardelli

"Na rude estrada em que me perdia,
Tingia o sol meu rumo inconstante...
A esperança era um vento arfante
Já sem manifesta feição ou melodia.

O meu peito exausto não mais pedia
A água para a sede apavorante:
Um manso descanso é o bastante
Quando a ilusão já não alumia.

A tristeza circundava os momentos:
O céu era o meu abrigo aos relentos,
As estrelas minhas amantes cristalinas.

E quando n'horizonte (ó êxtases belos!)
Floriu a visão de derrotados castelos,
Vi-me soberano entre íntimas ruínas..."

 Espero que gostem dos outros e os considerem como um pequeno taste de minha segunda obra:


E caso se interessem pelo primeiro livro (vários poemas do livro já foram divulgados neste blog, é só ir no marcador Poética das Quimeras, à direita da página, ou até mesmo no marcador Cardoso Tardelli) , o link para a compra por meio da Livraria Cultura é esse: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=29685064&sid=1701161861462557407969167

Há também a possibilidade de lê-lo por meio de e-book, cuja compra é por meio da Amazon: http://www.amazon.com.br/Po%C3%A9tica-das-Quimeras-ebook/dp/B00ENK5L2U/ref=sr_1_21?ie=UTF8&qid=1377118685&sr=8-21&keywords=multifoco

Abraços,
Cardoso Tardelli

sábado, 4 de fevereiro de 2012

A Obsessão por Originalidade e a Suposta Pobreza da Poesia Brasileira

Caros leitores do Sacrário das Plangências, esta postagem tem, por certo, uma temática das mais complexas e controversas que há no mundo das artes. Usarei dois textos como base para a discussão, um que está no Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro, de Andrade Muricy, quando este discorria dos motivos da inclusão de Augusto dos Anjos no Panorama, e um presente na introdução do livro do poeta simbolista José Severiano de Resende, na publicação mais recente que há - O Hipogrifo, São Sebastião e Outros Poemas e Prosa; Ed. Barcarolla, 2004. Ambos textos cingem a temática exposta no título deste tópico, que, por si somente, já ganha vida própria, pois a obsessão por originalidade, normalmente feita pela crítica, molda uma pobreza insistente na literatura do país, consequente da busca pelo um novo que nunca é reproduzido, portanto, que é estéril.

Eis o texto de Andrade Muricy acerca de Augusto dos Anjos e sua evidente colocação no Simbolismo, principalmente quando posto em comparação com Cruz e Sousa:

"Já se está ultrapassando, entre nós, o horror às aproximações, às comparações, à pesquisa de filiações e do entrecruzamento de influências tão fecundas na Literatura, e aliás em todas as demais Artes. Esse estudo de genérica literária restitui à Literatura a sua verdadeira universalidade humanística,  retirando-a dos exclusivos critérios nacionalistas e individualista, e da obsessão da "originalidade", tão esterilizadora."

Já o texto presente na mais atual edição de uma obra de José Severiano de Resende (poeta que consta na parte IX do estudo Um Descobrimento dos Simbolistas Brasileiros, deste blog), escrito por C. Giordano, assim nos aparece:

"Esquecido da crítica e consequentemente não-reeditado, depois de resenhado no Panorama do Movimento Simbolista Brasileiro (v. II, p. 65-74), de Andrade Muricy, terá tido apenas duas tentativas de relembrança.
O poeta, historiador e acadêmico de fina sensibilidade Alberto da Costa e Silva em 1957 publica na Revista do Livro (n. 6, p. 65-72), o artigo "José Severiano de Resende e alguns temas de sua poesia", discorrendo, além do que explica o título, sobre a vida de José Severiano. (...) O articulista fecha sua excelente leitura da poesia de José Severiano nestes termos:

Numa poesia pobre como a nossa não se deve relegar ao esquecimento o nome de José Severiano de Resende. Os seus melhores poemas possuem uma densidade, uma verdade interior, uma grandeza de visão que raramente encontramos nos trabalhos de nossos poetas.
(...)"


(Na foto: Augusto dos Anjos)

Temos, portanto, uma abordagem aparentemente distinta sobre dois poetas: Augusto dos Anjos,  reconhecido como um dos melhores poetas brasileiros, mas raramente posto como Simbolista, estilo no qual a sua poética melhor se encaixaria; José Severiano de Resende, pouco conhecido, mas, acerca de seu nome, no texto é feito um apelo pelo seu relembramento como poeta de destaque na "pobre literatura brasileira". Mas, em si, ambas abordagens cingem o vulto do esquecimento a que se refere o historiador Alberto da Costa e Silva e, para evitá-lo, a esterilização de um poeta.
Muito me parece que Augusto dos Anjos é posto solitário nas Letras para dar lume à sua qualidade artística e não o jogar ao limbo a que fora fadado o Simbolismo após muito esforço dos críticos. São tentativas falaciosas de envolvê-lo no manto da ausência de rastros influenciários (que vão desde Baudelaire, passando por Cruz e Sousa e até indo por nossos parnasianos, como era comum em alguns Simbolistas), e delegando-o a precursão de movimentos que viriam muito posteriormente ao seu Eu, o que é de certa forma um anacronismo. No caso de José Severiano da Silva, há uma discussão, inclusive, se o vocabulário requintado de sua obra não prejudicou a sua popularidade; se assim o fosse, Augusto dos Anjos, de vocabulário extenso, difícil, erudito, nunca teria a popularidade que tem hoje. A desvinculação de Augusto com um estilo favoreceu a sua fama após o movimento Moderno, o que não aconteceria com outros Simbolistas e Parnasianos, como o próprio José Severiano.

Quando me referi, no início do tópico, que a "obsessão por originalidade" levava à percepção de uma literatura pobre, referia-me exatamente às duas interpretações expostas. Negar as influências, o passado da humanidade e a própria humanidade em si contida, seria negar a evolução da Arte e o próprio nexo de sua existência. Não obstante, no Brasil, após o fluxo de patriotismo e moldagens de ideias de nação no Romantismo e da falácia de uma arte essencialmente brasileira exposta em 1922 e nos movimentos subsequentes, o conceito "esterilizante" da arte foi retomado como nunca antes fora, tendo como certa postura estética o artista "livre em sua escolha", sendo que a escolha por uma estética mais formal era vista com maus olhos (ora, quantos neo-Simbolistas não tiveram de abandonar o estilo mais clássico para serem vistos e aceitos pelos seus contemporâneos literatos?), sendo evidente, portanto, que a liberdade geral era condicionada à ausência de uma postura fixa de um ser.


(Na pintura de Belmiro de Almeida: Severiano de Resende)

A pobreza de nossa Literatura, principalmente a antiga, é falaciosa, principalmente partindo do princípio de que ela é mais jovem do que as Literaturas Europeias, alicerce de comparação de muitos. Julgar que o movimento Romântico foi pobre, assim como o Colonial, Parnasiano ou o Simbolista e etc é um grande erro, pois, apesar de existirem os poetastros, haviam vários outros que compunham os movimentos, que são sociais e históricos também, e que deveriam ter destaque. O que poderíamos salientar é a pobreza da Literatura após a década de 60 do Século XX no Brasil, podendo-se destacar no máximo três nomes que surgiram nessa época. Essa pobreza acompanha a falta de exigência do público, que prefere, cada vez mais, o óbvio ao subjetivo, por conseguinte, dão preferência à lei do menor-esforço.

A postura de "esterilização" sobre certos autores que é tomada por alguns acadêmicos parece-me também muito oportunista. É muito fácil analisar a singularidade que em cada obra é evidente (ora, estamos analisando Movimentos, mas que são constituídos por mentes de diferentes seres, mesmo que convergentes) e fabricar novos Estilos para conseguir, finalmente, ter algum tema para teses de Mestrado ou Doutorado. Poderíamos chamar isso de Esterilização-Acadêmica, que raramente é vista como falha, mas normalmente como um descobrimento de um mistério inexistente nas entrelinhas, entre os brados e lauréis da Academia. Como Andrade Muricy pontuou - e repito o trecho - "Já se está ultrapassando, entre nós, o horror às aproximações, às comparações, à pesquisa de filiações e do entrecruzamento de influências tão fecundas na Literatura, e aliás em todas as demais Artes (...)"; mas, ao contrário do que Muricy pensou, o movimento esterilizante só piora, e por motivos banais, hediondos. Muitos podem argumentar que é na Academia que surgem os trabalhos que resgatam grande parte da Literatura - de acordo -, mas, ao fazê-lo, por qual deturpação que não passam alguns autores e alguns estilos?

Aos artistas, cabe-se a busca por uma Arte pessoal, nova, que flua dentro de um parâmetro em que se aceite água de fontes várias. Aos críticos e acadêmicos, cabe-se o findar do terror aos chamados "clichês temáticos", que, muitas vezes, não passam de demonstrações contínuas de humanidade, em sua perpétua aparição nas sociedades. Esses "clichês" levam, muitas vezes, à obsessão por originalidade e, após um raso fitar na arte do país, à conclusão de que pouco há na arte de original, na quintessência da palavra, carregando muitos a injustiças contra os artistas nacionais em detrimento dos internacionais, osculados pela glória do desconhecimento.

Abraços,
Cardoso Tardelli

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

De Ti - Cardoso Tardelli

Caros leitores do Sacrário das Plangências, posto-lhes um poema presente na Poética das Quimeras (Selo FuturarteEd. Multifoco, 2012). 

A obra está disponível na Livraria Cultura (clique aqui para o link) e no site da editora (clique aqui para o link).  Há agora também o e-book da Poética das Quimeras (clique aqui para comprá-lo na Amazon.)

DE TI - Cardoso Tardelli

De ti, não serei sequer a esperança
Que conforta o tristonho coração;
Não serei nem uma terna lembrança
Que aos teus olhos diga paixão.

Não serei à tua fronte a aurora
Que no firmamento ternamente sorri;
Nem vaga memória serei... embora
Tudo a mim lembre de ti.

Não serei sequer um devaneio risonho,
Um verso, um hino, um canto;
De ti, não serei sequer um sonho
Que celebras em contente pranto.

O sorriso que languidamente fulgura,
Os olhos que riem, eu não serei de ti;
Embora em toda manhã pura
Tudo, por tua causa, alegremente ri.

De ti, não serei do peito o alento -
Nem o que move a tua doce alma;
Sequer serei um belo sentimento
Que aos teus tristes anseios acalma.

Não serei o que pulsa no teu seio,
Sequer o reflexo das lágrimas que perdi;
Porém, meu anjo! Meu alegre devaneio!
Bem sabes que meus versos, minh'alma... são de ti!...

21/03/2010

Abraços, Cardoso Tardelli

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A Poesia como Ciência - Eis que surge o medo para a sua leitura?

Caros leitores do Sacrário das Plangências, nesta postagem tenho o objetivo de discutir alguns aspectos da leitura poética e de sua relação na sociedade atual. O título é auto-explicativo, mas requer divagação: em nossa sociedade inundada da "Ordem Científica" (leia-se "Ordem" também num sentido em que estas as ideias - as ditas "Científicas" - tão-somente têm direito de cidade), como a leitura de um texto poético poderia ser encarada pelas pessoas sem ser pelo viés da ciência? Faço um adendo de imediato: não vamos confundir a leitura com a análise-formal de um texto. Esta sim, apesar de minha rejeição à palavra Ciência em um contexto didático, pode ser considerada uma ciência (no decorrer da postagem, vamos analisar, não obstante, a letalidade a que esse método pode levar a arte poética).

Talvez muitos já tenham ouvido, depois de uma pessoa se deparar com a leitura de um poema, algo como "não entendo poesia" ou coisas piores ainda, como "não sou poeta, portanto, não compreendo esse tipo de texto". A leitura de um texto poético em nossa sociedade é analisada da mesma forma pela qual analisamos um método científico acadêmico-restrito, ou até mesmo a leitura de um poema é encarada com o mesmo grau de mistério de uma resolução de um exercício de Matemática, Física, entre outras Ciências Exatas. Porém, essas mesmas pessoas que falam que não entendem poesia, leem prosa, muitas vezes, com tranquilidade. Não discordo que a poesia que um gênero que não raramente passa perto do abstrato, mas, em muitos casos, a imagem é tão clara quanto a luz do alvorecer.


Um dos argumentos mais comuns e frágeis contra a arte poética é aquele velho "um poema não tem personagem". Sabe-se que um poema que não causa sensações ao leitor desagradou, pois o intuito da arte poética é ser Belo (e, como Keats divagaria em sua Ode sobre uma Urna Grega, "a beleza é a verdade") e, consequentemente, causar uma comoção. Os sentimentos do autor, portanto, encontram-se com o espírito aberto do leitor - que torna os próprios sentimentos e a si mesmo os personagens da poesia e de seus enredos.
(Foto: Fagundes Varela)


Pergunto-me, pois, se os versos fossem "transformados" em sentenças comuns, o entendimento dessas pessoas tornaria-se melhor? Como ficaria a parte nona de Juvenília, composta pelo nosso Romântico Fagundes Varela (1841 - 1875), transfigurada em sentenças simples, mas rimadas de acordo com o poema original, (sem as tradicionais barras que dividem os versos) e que trazem a divagação original? Vejamos:


JUVENÍLIA

IX

"Um dia o sol poente dourava a serrania, as ondas suspiravam na pria mansamente, e além nas solidões morria o som plangente dos sinos da cidade dobrando Ave-Maria. Estávamos sozinhos sentados no terraço que a trepadeira em flor cobria de perfumes; tu escutavas muda das auras os queixumes, eu tinha os olhos fitos na vastidão do espaço.
Então me perguntaste, com essa voz divina que a teu suave mando trazia-me cativo:
- Por que todo o poeta é triste e pensativo? Por que dos outros homens não segue a mesma sina?
Era tão lindo o céu, a tarde era tão calma... E teu olhar brilhava tão cheio de candura, criança! que não viste a tempestade escura que estas palavras tuas me despertaram n'alma!
Pois bem, hoje que o tempo partiu de um golpe só sonhos da mocidade e crenças do futuro, na fronte do poeta não vês o selo escuro que faz amar as tumbas e afeiçoar-se ao pó?"

Bem vemos que, apesar de ter perdido a feição versificada, manteve-se musical essa magnífica obra de Varela. Muito vale notar que o poema é narrativo, como vários outros da época, panorama que se manteve em muitos outros estilos (o Parnasianismo brasileiro chegou a fazer adaptações em prosa para algumas obras poético-narrativas de autores estrangeiros, como em o Rei Fantasma, poema em quartetos de Goethe, traduzido para nossa língua em prosa por Francisca Júlia). Nota-se que o poema de Varela, sendo narrativo - em versos ou não -, é de fácil interpretação. Algumas palavras que poderiam causar dificuldade ("plangente", "aura") são facilmente achadas em dicionários on-line. Porém, creio que, ao retirar a aparência de versos, retirarei o manto fantasmagórico que a muitos tornam a leitura poética uma dificuldade desde o início. Mas o que, de fato, transforma uma estrofe em algo tão misterioso? Sentenças quebradas (enjambements), musicalidade incomum, ritmo? Não creio.

Quando o ensino de arte poética é praticado em escolas, muitas vezes é enfatizado o caráter formal do texto, dando importância à métrica, ao valor da rima, ao tipo da rima no contexto da estrofe, e se aquela estética satisfazia ao parâmetro do estilo literário escolhido pelo autor. Quando referia-me à perspectiva de um leitor que via um texto poético qual um texto de compreensão difícil, exclusiva para poucos (no caso, aos acadêmicos), tinha como intenção mostrar em qual momento começa essa perspectiva. Quando se dá uma suposta ciência em detrimento do texto - que é altivo e superior a quaisquer que sejam as análises de métrica ou valor de rima -, a arte poética funde-se às Ciências Exatas, porque o conteúdo poético e humano foi posto de lado para focalizar uma análise rígida e concreta da estrutura poética.

Ao mesmo tempo em que isso ocorre, o real valor da arte poética não é posto à visão dos alunos, que leem dois poemas - se muito - de cada autor, além de resumos contendo a divisão "Estética" e "Temática", que são mostradas em seções anteriores aos poemas dos autores e postas nos devidos movimentos literários. Vê-se, portanto, que a "Estética Plástica" - o nome correto da estética a ser discutida - é o ponto inicial de uma análise textual de um poema atualmente.

Inegavelmente, contagens silábicas, referências de valores de rimas (apesar do meu questionamento sobre a real importância que esses valores impõem num poema), entre outros estudos da Estética Plástica, são importantes para situar o aluno em determinados movimentos literários (é impossível analisar o período Parnasianismo/Simbolismo/Modernismo sem saber de métrica e a sua consequência na musicalidade), mas a ausência de um estudo melhor sobre os literatos soa-me estranha. Não se trata somente de um estudo sobre a obra, mas sobre os autores. Não posicionar o aluno no aspecto, que é real, da influência biográfica sobre a obra é uma grande falha. É quase explicar o lançamento de Broquéis (1893), de Cruz e Sousa, que foi livro essencial para o Simbolismo no Brasil, sem colocá-lo no contexto pós-abolição (1888) e explicar que Cruz e Sousa já havia lançado um livro - Missal -, o qual recebeu críticas horrendas, algumas dizendo que "Cruz e Sousa não negava a ascendência dos primitivos", e que "ele era um maravilhado" diante da civilização". O título Broquéis, sabem os que gostam de Cruz e Sousa, fora escolhido após o lançamento de Missal - e seu significado (pequeno escudo; no figurado: proteção) deixava claro o quanto Cruz e Sousa havia ficado abalado pelas críticas.

Portanto, fundir o ensino da arte poética com métodos de ensino das Ciências Exatas parece-me um erro que leva os alunos a um desinteresse quase perpétuo ao estilo - que bem sabemos, pouco tem de misterioso. A poesia, assim como qualquer matéria de Humanidades, tem de ser ensinada com o aspecto básico de que o alvo principal do estudo é amplitude do pensamento humano sobre as coisas que o rondam, inclusive sobre ele mesmo, naquela tentativa de encontra-se num panorama diferente do comum. Sabendo que as divagações sobre o ser não são possíveis de serem postas de uma maneira exata ou prática, de fato, é impossível chamarmos a Arte Poética de Ciência Poética, como quase está sendo concretizado estudo de poesia, por consequência do enfoque nos aspectos da Estética Plástica (talvez semelhante à análise de um quadro; podemos analisá-lo de um ponto de vista emocional, ou seja, de como a aparência e o jogo de cores e traços afetaram o seu ser - ou podemos julgar de um ponto de vista Plástico, logo, a perfeição dos traços ou o aspecto temporal daquele estilo e se, por consequência, ele se encaixa à época na qual ele fora pintado).

Cogitações como "há um problema básico de interpretação de texto", apesar de reais e gravíssimas, não julgo necessárias para a análise desse "fantasma da poesia", pois coloco exemplos de pessoas que leem prosa com facilidade, mas têm uma dificuldade imensa em compreender um texto poético. Tampouco estou falando que todos devem gostar do gênero poesia; digo somente que a compreensão de um texto poético inicia-se, atualmente, no aspecto mais exato e formal do estilo, e não da interpretação do texto, em si. Desenvolvendo o que no início havia dito, naquela analogia com algumas das Ciências Exatas, é como se alguns vissem a poesia qual uma equação a ser resolvida - e de maneira muito enfadonha.

A poesia é um gênero desvalorizado entre os jovens, assim como a música erudita (outro caso em que a apresentação da forma vem em primeiro lugar e soa complexa demais, fazendo com que muitos percam os intentos básicos de um ouvinte, que é tão somente ouvir e entregar-se às melodias escutadas), e para mudar o panorama dessa desvalorização deve-se, em princípio, deixar claro ao aluno o conteúdo humano da poesia, além de evidenciar a grandeza do gênero na amplitude da Literatura. Ninguém se interessará por poesia no Brasil se não se fizer um contexto histórico (na junção óbvia, porém vaidosamente difícil, de professores de literatura e história), se a obra não for colocada à mercê dos sentimentos e ânsias dos alunos (ao contrário do que defendem muitos, ler Camões não é anacrônico e diz, muito sim, aos jovens de nosso tempo; as sociedades mudam, mas o afã humano, num aspecto geral, mantém um alicerce básico, independentemente da época), e, por desenvolvimento de temática, obter a divisão da análise da obra - a mais importante - e da análise da Estética Plástica, que poderia ser dada de uma maneira muito mais interessante, envolvendo os contextos intelectuais de cada época.

Mas antes que me chamem de platônico (o que não me ofende), por discorrer algo que é impossibilitado pela natureza científica e escolar de nossa sociedade, portanto por supor "um mundo das ideias", todos sabemos que a estrutura de ensino básico no Brasil é ruim. Mesmo quando julga-se boa, caso das célebres particulares, fazem dos alunos espectros dos números rumo ao Vestibular, instituição posta num altar sabe-se lá por qual motivo. Nas escolas públicas, as Humanidades perdem aulas a cada ano; nas particulares, prestígio. Em si, em ambos os casos, e na questão poética também, numa sociedade em que "somente o que é produzido pela Ciência deve ser levado a sério" é natural a rejeição do que "não se toca, não se vê", mas que demasiado sente.

Abraços,
Cardoso Tardelli

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Cogitações sobre o Desprestígio da Poesia


Estimados leitores de o Sacrário das Plangências, nesta postagem discorrerei sobre alguns aspectos que vêm-me chamando a atenção em relação ao tratamento do gênero Poesia. Que este tem seus seguidores fiéis não há dúvida, mas que passa esse Ofício por crises internas (leia-se: temática e estrutural) e externas (a relação do leitor para com as obras, sejam antigas ou novas, além do esclarecimento do que é, de fato, a Poesia) são fatos inexoráveis e incômodos.

Recentemente, foi realizada a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), na qual houve a divulgação das inscrições para a Revista Granta, da Universidade de Cambridge, para uma edição que nomeará os Melhores Jovens Escritores Brasileiros, numa tentativa de jogar a lume os tendenciadores da nossa Nova-Literatura. As restrições para que o autor concorra ao prêmio, que é um "selo de qualidade", são: ter, ao menos, um texto publicado em livro e ter como gêneros enviados Contos ou Romances.
Vendo o histórico atual da revista, há tempos ela vem selecionando somente romancistas e contistas. Mas faço uma pergunta franca: como estampar numa capa a ostentação de que naquela coletânea há os vinte melhores escritores de um país, no anseio de delinear o futuro de uma literatura, se o gênero Poesia é excluído da seleção?
Inclusive, se formos perscrutar a proposta da Granta, é impossível chegar a uma padronização de Literatura, por mais relativa que esta seja, sem pôr todos os Gêneros Literários em prática. O tempo, por consequência, mostrará qual é a corrente de ideias mais forte e que influenciará do verso ao teatro.

Esse ato da Granta, que soou ao ouvido da maioria como uma brisa matutina, tamanha a naturalidade com que receberam a notícia, pode ser a consequência de vários erros de "relacionamento", posto de uma maneira simples, do público para com a Poesia. Ora, esta é vista em qualquer lugar, lugares nos quais nunca imaginou estar: letras de música, fotografias, filmes e entre outros meios de arte.
Não me refiro aqui às fotografias que possuem trechos de poemas, ou filmes que retratam vidas de poetas, com consequentes declamações, mas de elogios como "Essa fotografia é um poema", celebração também utilizada para filmes. O "poema" deixa de ser gênero para tornar-se adjetivo, excluindo o ofício do poeta de transformar uma paisagem (que pode ser a da fotografia referida) em estrofes lancinantes. No caso de filmes, cujos alicerces no teatro e nos romances não precisa ser exposto, pois estes vêm da lógica, o adjetivo poema subjetiva o "belo", sendo que nem toda obra em verso é bela, ou feita para dar tal impressão. Vemos, nos casos citados, por incrível que pareça, uma necessidade vívida de Poesia, mesmo que ela apareça em outra forma, mas contenha "a pompa" de seu nome.

Talvez o caso mais incômodo seja o das letras de música. Após o movimento Modernista, em 1922, e dos constantes cultos ao verso-livre, cujo nome é bem questionável se o poeta não for bom o bastante para se libertar da visão primeira e concreta que nos inunda por toda a vida, tornou-se comum denominar "Poesia" as letras de compositores. Não à toa, muitas vezes vemos biografias de figuras de nossa música com títulos como Vida, Música e Poesia de...; inegavelmente, há algumas que têm trechos mais inspirados do que os menos inspirados trechos dos nosso célebres, mas a desassociação da Melodia e da Letra torna-se impossível após ouvido o trecho, mesmo porque a letra ganhou pompa com o carregamento melódico e vocal. Além do mais, muito mais sacrificante do que a métrica - se é esta uma ceifadora para os grandes poetas - é adaptar uma letra a um andamento harmonioso.

Se o público enxerga o gênero, mesmo que diluto num adjetivo-subjetivo, em vários outros tipos de arte, por que ele procuraria a Poesia no incorrupto grau em que ela é composta? Essa ação, nota-se, ganha maior força nestes tempos de "lei do menor esforço".

Muitas pessoas cogitam a possibilidade de que a Poesia é um retrato das altas classes intelectuais - e assim sempre o foi. O Modernismo quebrou com qualquer perspectiva de exclusão do gênero num grupo acadêmico, pois fez do ofício poético algo como um grande compêndio de vulgaridades, mas tornando a estética, às vezes também a temática, muito vulgares também. Inclusive sobre a questão Acadêmica, vê-se que mesmo na Academia, suposto reduto de conhecimento, o desdém ao Gênero retumba.


(Na foto: Goethe)

Indo para além do aspecto das Artes, irei cogitar algo mais remoto, quase inconsciente. A Poesia, por muito tempo, caminhou ao lado da Filosofia e da mais alta elevação de pensamento, tanto que, por muitas vezes, os poetas escreviam versos, prosa poética - fazendo desta um manto de teorizações para a Poética e para a vida - até para a prosa clássica, mesmo que não abandonassem o estilo poético de escrita, ou seja, repleto de inversões de sentenças, sendo que estas eram feitas para desaguar num ritmo não comum em prosas. Esse estilo de vate ganhou intensidade na época do Romantismo e Simbolismo, tendo em Goethe (1749-1832) um grande exemplo, passando também por Edgar Allan Poe (1809-1849), Baudelaire (1821-1867) e, no Brasil, como exemplo, Cruz e Sousa (1861-1898). Todos estes, sendo que ainda excluí muitos, tinham como a Arte e o Conhecimento como afãs que os prendiam ao chão mundano.


Além da arte, do conhecimento, os poetas referidos tinham ideais de perpetuidade do pensamento terreno. Cruz e Sousa, em "Post-Mortem", deixa o exemplo claro disso:

POST-MORTEM

(...)

Mas os teus Sonhos e Visões e Poemas
Pelo alto ficarão de eras supremas
Nos relevos do Sol eternizados!


A negação da matéria, sendo esta efêmera para cada um de nós, foi tema corriqueiro nos tratamentos de perpetuidade das ideias. Acima de tudo, sempre se teve a percepção de que, mesmo passada a vida do poeta, o maior legado que ele poderia deixar seria seus ideais e pensamentos. Uma das grandes maneiras de fazê-lo era por meio da Poesia. O inegável é que a sociedade hoje tem a ideia de legado como algo Material, além da constante ideia juvenil de que nada adianta o conhecimento se a morte é o abrigo derradeiro de todos nós. Notem que a visualização do legado altivo, que é a perpetuidade de um ser por intermédio de suas ideias, é excluída na premissa materialista de que não há ideia que vive sem o pensador ao lado, pois a predominância da ânsia pela fama faz criou a retórica do "Que adianta ser eterno se não há o deleite da notoriedade?". Findada a força de perpetuidade da ideia, esta deixa de ser motivo interesse aos que têm domínio das letras, preferindo a efemeridade dos best-sellers atuais a um tateamento do ser, que por gerações diversas bramiria.

Voltamos, então, à questão da revista Granta. Está sendo ela displicente diante de uma evidente decadência do tratamento feito ao gênero Poesia ou somente sendo um espelho da sociedade? Mas como uma revista de uma das mais importantes Universidades do mundo, e sendo na mesma pátria em que nasceram Byron (1788-1824), Keats (1795-1821), Percy B. Shelley (1792-1822), entre outros grandes, não estariam sendo os editores gigantescos espectros apoiados na confortável cegueira popular diante de uma história de eloquência e erudição?

(Na foto: Cruz e Sousa)

Como o título desta postagem deixa claro, são cogitações - mas todas sobre um fato: a Poesia teve o prestígio abalado a partir do momento em que o público se esqueceu, ou deixou de ter a percepção, de que ele também é um personagem de cada poema, e por esse ser alheio à obra e à sua alma, procura preencher com outros personagens a sua amplidão vazia por meio de romances de fácil entendimento ou, como já dito, diluindo a necessidade de Poesia em outras artes, na transfiguração do gênero para o adjetivo.

Não há outro meio de reverter essa situação se não for por intermédio dos poetas, que estão, ao mesmo tempo unidos na preocupação da valorização de sua obra e do gênero, mas dissipados por consequência do vácuo que é o esquecimento de seus alicerces. Para o público, muito além de "Nova-Literatura Brasileira", se o caso é poesia, eles querem observar poetas que se valorizam e que têm do verso como Ofício, independentemente das vendas. Acima de tudo, creio que os poetas têm de ser poetas e escrever para o legado, "desdenhando de toda a recompensa", como escreveu Cruz e Sousa, um dos mais injustiçados poetas brasileiros.

Abraços, Cardoso Tardelli

quarta-feira, 4 de maio de 2011

A Autoridade Autoral

Caros leitores do Sacrário das Plangências, caso achem que o blogueiro cometeu um erro ao colocar o título do Post de "A Autoridade Autoral", faço o meu ponto: tratarei de Poesia, não de dinheiro referente aos Direitos sob as vendas dos livros que contenham poemas de um autor, além de outros processos que podem ser relativos ao Direito Autoral.

Poderia definir a Autoridade Autoral como o que o autor, pondo em prática o seu Ofício, deixa em seu Autógrafo (Manuscrito que contém o autógrafo do autor), independentemente de aparentes erros estruturais ou
ortográficos para futuras gerações, o Conteúdo de sua Arte com o total saber de seus caminhos. A Autoridade é mental-própria e não flui para modificações posteriores, com a exceção aos acordos ortográficos - ainda sim, sabendo colocar o Autor no referente estilo em que se encaixava, na certeza de deixar o texto em sua forma mais límpida e leal ao Original.

Não estou tratando, contudo, das vulgares Licenças Poéticas, pois hoje elas são usadas para o mal da Arte Poética (ou, numa ampliação rompida de seus véus, das letras musicais, que muito fazem de medonho em seus conteúdos); a Autoridade Autoral é a Autoridade total do Autor sob o conteúdo do Original, esteja ele vivo ou morto.

Diferenciações feitas, parto para alguns exemplos que causaram-me a ideia desta postagem. A minha edição de Últimos Sonetos, de Cruz e Sousa (Editora UFSC.
Florianópolis, 1997), tem passagens que demarcam as alterações dos textos originais feitas pelos editores mesmo com os Autógrafos do livro estando em perfeito estado de conservação. O que mais chama a atenção é o fato de que Nestor Victor, o melhor amigo do poeta e para quem Dante Negro destinou os três sonetos derradeiros do livro, editor de duas publicações de Últimos Sonetos (1905 e 1923) fez modificações estranhas aos Originais Cruzianos, sendo seguido pelas edições de Andrade Muricy, um grande amigo de Nestor Victor (edições de 1945 e 1961).

(Na foto - Nestor Victor)



Visualizando o clássico soneto "Supremo Verbo", vê-se na edição que tenho em mãos (que contém, de alguns poemas, os fac-similares de seus Originais) que as modificações apontadas por Adriano da Gama Kury, autor das correções feitas nas edições antigas com base nos Autógrafos de Cruz e Sousa doados para a Casa Rui Barbosa, partem desde um desdém à Autoridade Autoral e chegam ao erro de leitura, o que nos surpreende pelo fato de que alguns já eram conhecidos quando Cruz e Sousa era vivo.


Na primeira estrofe, por exemplo:


SUPREMO VERBO

- Vai, Peregrino do caminho santo,
Faz da tu'alma lâmpada do cego,
Iluminando, pego sobre pego,
As invisíveis amplidões do pranto

O travessão, que essencial é ao entendimento da poesia, pois é o início de certo Sermão Supremo da Natureza para o Poeta, foi retirado das edições feitas sob os cuidados de Andrade Muricy. Na segunda estrofe:

Ei-lo, do Amor o cálix sacrossanto!
Bebe-o, o feliz, nas tuas mão o entrego...
És o filho leal, que eu não renego,
Que defendo nas dobras do meu manto.

Quanto ao "Cálix", que está no original, foi usado um sinônimo que mudava a métrica - "Cálice" - na primeira edição organizada por Andrade Muricy. O "És" está no Original, mas foi suprimido pelo erro de leitura que me referi anteriormente. No Autógrafo de Cruz e Sousa é possível confundir-se por "Eis", como está marcado em todas as edições anteriores a que tenho em mãos, mas soaria estranho ao encaminhamento da poesia.
Em todo livro há uma série de estranhas modificações que se fosse eu colocá-las, ficaria a maior postagem do blog.

Devemos, porém, entender o que é uma modificação consciente e que é um erro tipográfico. Para tal, basta um pouco de discernimento e atenção. Mudarei de autor para discutir esse tipo de erro e mostrar o quão diferente é.

Casimiro de Abreu teve suas "Obras Completas" lançadas, pela primeira vez, em 1871, quase onze anos depois de sua precoce morte, editadas por Joaquim Noberto de Sousa e Silva, publicada pela editora Garnier, provavelmente para comemorar 10 anos do falecimento do poeta fluminense. A tentativa, porém, foi de uma frustração inefável, tanto que a Edição é quase extinta nos dias atuais (segundo Mário Alves de Oliveira, em sua vasta pesquisa só encontrou três edições de 1871) por motivos de destruição, inclusive do frustrado editor.

A recente edição da "Obra Completa" de Casimiro de Abreu, organizada pelo pesquisador referido, Mário Alves de Oliveira (G.Erakoff Casa Editorial, Rio de Janeiro, 2010) - obra de leitura obrigatória para os fãs da poesia Romântica -, além de nos trazer toda a obra de Casimiro, mostra os percalços pelos quais os versos de Abreu tiveram de passar - e a lendária primeira edição de suas "Obras Completas" está no altar altivo do desastre. Durante a análise, Mário Alves de Oliveira mostra-nos alguns dos estranhos erros tipográficos que se encontram no livro. Sabendo-se que a Obra foi editada em Paris, há a probabilidade de erros pela consequência do não conhecimento da Língua Portuguesa. Aqui vão alguns erros mostrados por Mário A. de Oliveira:

(Em negrito, o trecho correto)

"Pos esses campos que eu amo", em lugar de "Por esses campos que eu amo"

"A virgem na reda córando e sorrindo..." em lugar de "A virgem na rede corando e sorrindo".

"Sem envires meu lamento;" em lugar de "Sem ouvires meu lamento".

"Trlvez que eu durma solitário e mudo" em lugar de "Talvez que eu durma solitário e mudo"

"Dá, fosmosa", em lugar de "Dá, formosa,"

Enfim, Mário Alves de Oliveira nos dá vinte e um exemplos de erros que beiram o cômico e o estranho, sendo que, segundo ele, havia mais nessa edição. Erros que são, não obstante, facilmente diferenciáveis das violações das Autoridades Autorais. Não podemos esquecer de que as edições malfadadas têm como consequência uma reputação manchada do Poeta, principalmente se houver um grupo interessado em fazê-lo. No caso de Casimiro de Abreu, sabe-se que seu nome foi desdenhado pelos Parnasianos, cultuadores da forma e da pseudo-perfeição, porque sua poesia continha erros de português e métrica.

O grande ponto é que a violação da Autoridade Autoral também pode nodoar a Poética de um autor, mesmo porque não necessariamente a "correção do editor" satisfaz o desejo do autor em seu ofício de criação e, inclusive, pode mudar o sentido da obra. Sendo assim, a pureza dos originais tem de ser mantida para a quintessência do estilo do autor não ter fulgores, ou negrores, estranhos a ela.

Abraços, Cardoso Tardelli